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ECOBSERVATÓRIO · OPINIÃO

O surfista percebe primeiro. Falta alguém ouvir.

26 de setembro de 2026
João Malavolta
Ecobservatório · OpiniãoJoão MalavoltaJornalista, designer, geógrafo e técnico em meio ambiente · Cofundador do Instituto Ecosurf

Quem entra no mar todos os dias percebe antes de qualquer relatório: a areia que some, a água que muda de cor, o plástico que chega com a maré. O problema é que essa percepção quase nunca chega aonde as decisões são tomadas.

Durante muito tempo, o surf foi tratado no Brasil como lazer, esporte ou produto turístico. Quase nunca como fonte de conhecimento sobre o Oceano. É um desperdício. Surfistas passam horas lendo ondulações, ventos, correntes e bancos de areia. Em grande parte, somos os primeiros a notar os sinais de degradação ambiental e das mudanças climáticas no litoral. Mesmo assim, essa observação cotidiana raramente é considerada na gestão costeira, nos planos de adaptação climática ou no licenciamento de obras que alteram as praias.

Por que criamos o Raio-X Ecosurf

Foi para mudar esse quadro que o Instituto Ecosurf criou, em 2024, o Raio-X Ecosurf, uma pesquisa nacional sobre como surfistas e esportistas do mar percebem as mudanças climáticas, a poluição marinha e os impactos que afetam as ondas e a vida no litoral. Não é uma enquete qualquer. São 40 perguntas, fechadas e abertas, sobre consciência climática, hábitos no dia a dia e durante o surf, percepção da poluição e participação em ações de conservação.

O retrato que surgiu já diz muito: mais de 500 respostas válidas, vindas de 19 estados e de mais de 90 municípios. É uma fotografia inédita de uma comunidade que costuma ser vista apenas como consumidora da praia, e não como guardiã dela.

O que incomoda

Minha crítica é direta: o poder público ainda não sabe o que fazer com esse tipo de informação. Dados produzidos pela sociedade civil são tratados como curiosidade, quando deveriam alimentar políticas públicas. Enquanto isso, obras costeiras seguem aprovadas sem que ninguém pergunte o que vai acontecer com as ondas, o lixo continua chegando ao mar pelos rios e pelos sistemas de drenagem, e a conta recai sobre voluntários que limpam no fim de semana o que a falta de gestão produz durante a semana inteira.

Também devemos uma autocrítica. A comunidade do surf ainda tem uma relação contraditória com o Oceano: consome equipamentos feitos a partir do petróleo, viaja muito e nem sempre transforma o amor pelo mar em participação política. Amar o mar não basta. É preciso ocupar conselhos, audiências públicas e espaços de decisão, com a mesma disposição com que se rema para a próxima série.

Dado que vira voz

Por isso levamos os resultados do Raio-X à COP30, em Belém, dentro da campanha #SurfNaCOP30, com um manifesto que apresenta os surfistas como observadores privilegiados do Oceano. Mas nenhum dado muda nada sozinho. Ele precisa ser usado: nos planos municipais de gerenciamento costeiro, na criação de Áreas de Surf Protegidas, em políticas que reduzam o plástico na origem e em programas de educação ambiental que tratem quem está na água como parte da solução, e não como plateia.

O convite

Se você surfa, rema, mergulha ou simplesmente vive o mar, sua percepção é informação. Conheça os dados do Raio-X Ecosurf, leia como a pesquisa chegou à COP30 e, sobretudo, participe: assine a petição por Áreas de Surf Protegidas e cobre dos seus representantes que o conhecimento de quem está na água seja levado a sério.

Quem conhece o mar de perto não pode continuar sendo ouvido só depois que a onda acaba.

Os artigos de opinião refletem a visão de seus autores e não necessariamente a posição institucional do Instituto Ecosurf.

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