
Na imagem, Tito Rosemberg, à esquerda, e Vinícius Grauçá.
Sempre fui um surfista meio atípico. Enquanto muitos buscavam referências nas manobras, eu buscava inspiração na arte, na história e na literatura relacionadas ao surf. Não digo isso para me colocar como melhor ou superior a ninguém, mas para destacar minha maneira particular de encontrar um nicho dentro da cultura e da filosofia surfista. Essa característica, certamente, vem moldando minha maneira de agir como educador do Mar até hoje.
Entre minhas referências, destaco dois grandes nomes: Tito Rosemberg e Amyr Klink. Mestres que, cada um à sua maneira, ampliaram meu olhar sobre o Mar, a aventura e a relação humana com a Natureza.
Tenho a felicidade de poder chamar Tito de amigo. Adorava ler sua coluna em um antigo portal da internet. Sempre admirei sua maneira artística de escrever e interpretar o surf. Certa vez, no dia do meu aniversário, tive o presente surreal de passear com ele em sua última Land Rover. Aquilo foi uma aula viva de surf e aventura, além de um verdadeiro minicurso particular de história do surf e conservação da natureza.
E sobre Amyr Klink, o que dizer? Não o conheço pessoalmente — o que seria uma grande honra —, mas acredito que muitos amantes e aventureiros do Mar já tenham lido seus livros. Acompanhei suas viagens e seus desafios inúmeras vezes, navegando também pela imaginação.
Mas aonde quero chegar ao destacar essas referências?
Minha intenção é provocar uma reflexão: quem ou o que os surfistas usam como referência de maestria hoje?
Penso que aqueles que seguem uma vertente mais esportiva encontram em Gabriel Medina, Yago Dora e outros brasileiros do circuito mundial, além de atletas estrangeiros, suas principais referências. E isso é natural e compreensível. Mas e aqueles que, assim como eu, buscam o algo a mais? Os que enxergam o surf como filosofia, cultura e modo de vida, e não apenas como esporte? Onde encontram suas referências?
Para aprofundar essa pergunta, proponho um paralelo com o modelo escolar tradicional: como se viram as crianças que são artistas, bailarinas, atores, poetas, artesãos… SURFISTAS? Como se viram aqueles que não encontram espaço para desenvolver suas potencialidades dentro do próprio ambiente escolar, que, no meu entendimento, deveria ser um lugar de acolhimento, descoberta e fortalecimento de diferentes formas de aprender?
O mundo mudou, a comunicação mudou e a velocidade da informação é gigantesca. Será que não passou da hora de revermos também nossas formas de ensinar e aprender?
E, tratando-se de surf, o que ensinam e para que existem as escolas de surf? Alguém pode responder: “Que pergunta idiota, Grauçá! Elas ensinam a surfar, óbvio!”
E aí eu provoco novamente: o que — e quem — está envolvido no ato de surfar? Essa prática envolve apenas seres humanos? Acontece em um espaço que não exige cuidados? Os materiais utilizados são produzidos de maneira responsável e respeitosa com o meio ambiente?
Entendem onde quero chegar?
Se é uma escola e sua prática acontece dentro de um ecossistema vivo, uma escola de surf precisa, necessariamente, evoluir em seus métodos e em seu compromisso ambiental. Não dá para ensinar apenas a ficar em pé sobre uma prancha sem ensinar também consciência, compromisso com o meio e respeito aos seres que ali habitam. É preciso olhar, inclusive, para os materiais que utilizamos e para os impactos que nossa prática pode gerar.
Esse paralelo nos ajuda a compreender que o processo educativo vai muito além dos muros escolares — e também muito além da arrebentação. A formação técnica é importante, mas o aprendizado de verdade é aquele que nos conecta com o mundo à nossa volta.
Porque aprender a surfar também pode ser aprender a compreender, respeitar e cuidar do Mar.
Os artigos de opinião refletem a visão de seus autores e não necessariamente a posição institucional do Instituto Ecosurf.


