Com 539 respostas de surfistas de 18 Unidades da Federação e relatos sobre 725 locais de surf, o Observatório Ecosurf reúne dados sobre mudanças climáticas, poluição plástica e proteção dos ecossistemas costeiros.
O mar mudou. E quem vive na arrebentação já percebeu.
O Instituto Ecosurf disponibiliza publicamente os resultados do Raio-X Ecosurf 2024–2025, uma pesquisa nacional que investigou a percepção socioambiental da comunidade do surf sobre crise climática, poluição plástica, saúde do Oceano, proteção das ondas e engajamento ambiental.
Com 539 respostas válidas, participação de surfistas de 18 Unidades da Federação e relatos sobre 725 locais de surf, o levantamento transforma experiências de quem está dentro d’água em uma base estruturada de informações sobre os ambientes costeiros brasileiros.
O principal alerta é expressivo: 91,8% dos participantes afirmam que o Oceano já está sendo afetado pelas mudanças climáticas. Entre as transformações percebidas estão a elevação do nível do mar, relatada por 53,6%, e a perda ou o estreitamento das praias, indicada por 50,3%.
Os resultados refletem a percepção dos participantes. Não constituem, por si só, medições ambientais nem devem ser generalizados automaticamente para todos os surfistas brasileiros.
Observatório Ecosurf amplia o acesso aos resultados
Para tornar os dados acessíveis, o Instituto lançou o Observatório Ecosurf, uma plataforma interativa que permite cruzar informações, aplicar filtros territoriais, comparar recortes regionais e explorar respostas abertas dos participantes.
A ferramenta foi desenvolvida para apoiar jornalistas, pesquisadores, educadores, organizações da sociedade civil e gestores públicos na interpretação dos resultados e no debate sobre políticas de proteção das praias, ondas e ecossistemas costeiros.
O levantamento também valoriza a contribuição da comunidade do surf para a ciência cidadã. A presença frequente no mar permite acompanhar mudanças na qualidade da água, no comportamento das ondas, na faixa de areia, na presença de resíduos e na fauna marinha. Esses relatos podem ajudar a identificar problemas e orientar investigações e ações de monitoramento.
O surf como observador das transformações costeiras
A pesquisa indica que a crise climática já faz parte da experiência cotidiana de muitos participantes. Erosão, ressacas, alterações nas ondas, aquecimento da água e mudanças na paisagem das praias aparecem entre as transformações relatadas.
Essas observações precisam ser interpretadas em diálogo com estudos e monitoramentos ambientais, pois diferentes processos podem contribuir para as mudanças percebidas em cada território.
Para o surf, as consequências têm uma dimensão direta: praias e ondas são a infraestrutura natural do esporte.
Quando uma praia perde faixa de areia ou tem sua dinâmica costeira alterada, os efeitos podem alcançar a biodiversidade, o acesso ao mar, a prática esportiva, o turismo, a economia local e os modos de vida associados à costa.
Proteger esses ambientes significa cuidar também da cultura e das comunidades que se desenvolveram ao redor das ondas.
Poluição plástica faz parte da rotina dos participantes
Outro resultado central do Raio-X Ecosurf é a frequência dos relatos sobre resíduos plásticos: 93,9% dos participantes afirmam encontrá-los sempre ou frequentemente nas praias que frequentam.
O percentual evidencia como a presença de plástico se tornou recorrente na experiência da comunidade pesquisada, reforçando a necessidade de prevenção, gestão adequada dos resíduos e enfrentamento das fontes de poluição.
A pesquisa também aponta que 43,2% dos participantes relatam observar animais marinhos mortos sempre ou frequentemente.
Esse resultado merece atenção, mas não permite determinar as causas das mortes nem estabelecer uma relação direta com a poluição plástica. Os registros reforçam a importância de monitoramento especializado e investigação das condições ambientais nos territórios mencionados.
Mudanças individuais e cobrança por respostas coletivas
A comunidade pesquisada também relata mudanças de comportamento. 97,2% dos participantes afirmam ter alterado hábitos pessoais em resposta à crise ambiental.
Ao mesmo tempo, os resultados mostram uma forte demanda por ações públicas e empresariais:
- 99,6% defendem mais investimentos públicos no combate à poluição.
- 98,0% cobram maior responsabilização das empresas.
- 76,3% afirmam estar dispostos a se envolver ativamente na proteção do Oceano.
Para o Instituto Ecosurf, esse conjunto de respostas sinaliza que o engajamento individual precisa ser acompanhado de políticas públicas, fiscalização, infraestrutura e responsabilidade corporativa.
A disposição para agir abre espaço para iniciativas que conectem participação comunitária, educação ambiental, produção de dados e incidência sobre decisões que afetam as zonas costeiras.
Vivência ambiental e acesso ao conhecimento
Um dos achados da pesquisa está no contraste entre a experiência cotidiana no mar e o conhecimento de conceitos ligados à conservação: 53,2% dos participantes afirmam desconhecer o conceito formal de “Ecossistemas de Surf”.
O desconhecimento do termo não significa ausência de conhecimento sobre o território. Os relatos mostram que muitos participantes reconhecem mudanças ambientais e demonstram disposição para proteger os lugares onde surfam.
O dado revela uma oportunidade para ampliar o acesso à cultura oceânica, à comunicação científica e aos instrumentos de participação na gestão costeira.
Compreender os ecossistemas de surf envolve olhar para as relações entre ondas, praias, fundos marinhos, qualidade da água, biodiversidade e comunidades. Essa perspectiva ajuda a conectar a prática esportiva à conservação dos processos naturais que tornam o surf possível.
Da percepção à participação
Com o Raio-X e o Observatório Ecosurf, o Instituto busca aproximar a experiência da comunidade do surf dos debates sobre conservação, planejamento territorial e políticas públicas.
A proposta é transformar observações em informação acessível e criar condições para que surfistas participem de forma mais qualificada das decisões sobre o futuro das praias e das ondas.
Quem acompanha o mar de perto pode contribuir para identificar mudanças, fortalecer o monitoramento e mobilizar respostas. Proteger o Oceano também passa por ouvir essas vozes.
Acesse o Observatório Ecosurf: Observatório Ecosurf


