Pesquisa com quase 200 especialistas locais avaliou 57 ondas em Reservas Mundiais de Surf e concluiu que mais de três quartos delas estão em alto risco.
Um estudo publicado na revista científica Climatic Change indica que a crise climática ameaça muitas das ondas mais conhecidas do planeta. A pesquisa foi noticiada em 10 de outubro de 2026 pelo jornal britânico The Guardian, em reportagem do editor de meio ambiente Damian Carrington, que serve de base para este texto.
O que o estudo encontrou
Segundo a reportagem, quase 200 especialistas locais analisaram 57 ondas em 11 das 13 Reservas Mundiais de Surf, distribuídas por oito países. Mais de três quartos foram classificadas como de alto risco. As causas apontadas são a mudança no nível das marés, o deslocamento de areia e sedimentos e o endurecimento da linha de costa por obras.
Entre as ondas avaliadas como mais ameaçadas estão a de Croyde, no norte de Devon (Reino Unido), os point breaks de Noosa (Austrália) e de Oriente Salvaje (El Salvador) e recifes de Santa Cruz, na Califórnia (Estados Unidos). Os pesquisadores afirmam que milhares de outras ondas pelo mundo enfrentam risco semelhante.
Por que as ondas são tão sensíveis
Dan Reineman, professor associado da California State University Channel Islands e coautor do estudo, explicou ao jornal que uma boa onda depende de um encaixe muito preciso entre o formato do fundo, a direção da ondulação e a maré. A elevação do nível do mar e a alteração do regime de chuvas, que muda o transporte de sedimentos, podem desfazer esse equilíbrio.
A pesquisa também mostra que litorais mais naturais se adaptam melhor, porque conseguem recuar em direção ao continente e redistribuir sedimentos. Estruturas como muros de contenção, molhes e espigões tornam praias e ondas menos resilientes, segundo Reineman.
Um alerta que vai além do surf
Trent Hodges, coautor do estudo e gerente sênior de programas da Save The Waves Coalition, organização que criou o programa de Reservas Mundiais de Surf em 2009, disse ao Guardian que a mudança em uma onda costuma ser sinal de que a praia inteira está mudando. Ele lembrou que o surf sustenta economias locais: em Santa Cruz, a atividade movimenta cerca de 200 milhões de dólares por ano, e no leste de El Salvador a economia depende quase toda dela.
Adam Hall, cofundador da Reserva Mundial de Surf de North Devon e um dos surfistas que contribuíram com a pesquisa, relatou ao jornal que os surfistas movimentam bares, restaurantes e estacionamentos da região também nos meses de inverno, quando outros destinos turísticos ficam vazios.
O que os pesquisadores recomendam
Os autores defendem que surfistas locais usem as ferramentas desenvolvidas no estudo para avaliar as próprias ondas e atuem junto ao poder público para protegê-las do avanço de obras costeiras e dos efeitos do clima. A reportagem cita três exemplos de proteção já em vigor: a cidade de Gold Coast, na Austrália, que incluiu a proteção do surf na legislação de planejamento, a Nova Zelândia, que reconhece ondas de importância nacional, e o Peru, com a Ley de Rompientes.
E no Brasil?
O Brasil abriga uma das Reservas Mundiais de Surf, a Guarda do Embaú, em Santa Catarina. A reportagem não informa quais das 13 reservas ficaram fora da análise.
As conclusões do estudo dialogam com o que surfistas brasileiros já relatam. No Raio-X Ecosurf 2024–2025, pesquisa do Observatório Ecosurf com 539 respostas de surfistas de 18 Unidades da Federação, 91,8% dos participantes afirmaram que o Oceano já está sendo afetado pelas mudanças climáticas. A elevação do nível do mar foi relatada por 53,6% e a perda ou o estreitamento das praias, por 50,3%. Esses números refletem a percepção dos participantes e não são medições ambientais.
O Brasil ainda não tem uma política nacional de proteção das ondas. O Instituto Ecosurf atua nessa agenda com o projeto Ondas Protegidas e com a petição pela criação de uma Política Nacional de Áreas de Surf Protegidas.
Fontes: reportagem “Climate crisis is coming to crush many of world’s best surf breaks, study warns”, de Damian Carrington, publicada pelo jornal The Guardian em 10 de outubro de 2026 e atualizada em 12 de outubro de 2026, disponível em theguardian.com. O estudo original foi publicado na revista científica Climatic Change. Este texto é um resumo jornalístico em português, com informações e declarações atribuídas à reportagem original, e não uma tradução integral. Os dados sobre o Brasil são do Raio-X Ecosurf 2024–2025.


