
Depois de 26 anos retirando resíduos do litoral, precisamos perguntar por que continuamos limpando as consequências enquanto a produção, o descarte e a transferência de responsabilidades permanecem na origem do problema.
No último domingo, 27 de setembro, o Instituto Ecosurf realizou mais uma mobilização do Dia Mundial da Limpeza, no Praião, em Itanhaém, litoral de São Paulo.
Mais uma vez, voluntários se reuniram para retirar resíduos da praia, identificar os materiais encontrados, produzir dados e chamar atenção para um problema que o Ecosurf acompanha no território há mais de duas décadas.
Nossa primeira operação de limpeza de praia foi realizada no ano 2000. São, portanto, 26 anos de mobilizações, educação ambiental, ciência cidadã e enfrentamento ao lixo no mar.
Depois de todo esse tempo, uma pergunta se tornou inevitável:
por que ainda estamos encontrando tanto plástico?
Vinte e seis anos depois, o problema só aumentou
Nossa experiência nas praias não acontece isoladamente. Ela acompanha uma transformação global muito maior.
Segundo a OCDE, a produção mundial de plásticos passou de 234 milhões de toneladas em 2000 para 460 milhões em 2019. No mesmo período, a geração de resíduos plásticos mais que dobrou, passando de 156 milhões para 353 milhões de toneladas. Apenas 9% desses resíduos foram efetivamente reciclados naquele ano.
Ou seja: enquanto organizações, comunidades, catadores, governos municipais e voluntários tentavam retirar resíduos do ambiente, a torneira continuava aberta.
E continua.
O próprio setor brasileiro do plástico informa que, em 2025, apenas 21,3% dos resíduos plásticos pós-consumo foram reciclados mecanicamente. Quando consideradas embalagens e materiais equiparáveis, o índice foi de 24,2%. Houve evolução na produção de resina reciclada, e isso precisa ser reconhecido. Mas esses mesmos números deixam uma pergunta evidente: o que acontece com todo o restante?
Reciclar mais é necessário. Mas imaginar que conseguiremos resolver a crise da poluição plástica apenas ampliando a reciclagem é continuar discutindo o problema predominantemente depois que ele já foi criado.
O consumidor não desenhou a embalagem
Durante décadas, grande parte da comunicação sobre resíduos foi construída sobre uma sequência conhecida:
“Descarte corretamente.”
“Separe seu lixo.”
“Recicle.”
“Faça a sua parte.”
Tudo isso é importante. O consumidor tem responsabilidades.
Mas essa narrativa se torna profundamente desequilibrada quando não fazemos outras perguntas.
Quem escolheu a matéria-prima?
Quem definiu que determinado produto precisava de duas, três ou quatro camadas de embalagem?
Quem decidiu produzir uma embalagem destinada a ser utilizada durante minutos e permanecer no ambiente durante décadas?
Quem determina se uma embalagem será reutilizável, retornável, reciclável ou praticamente impossível de recuperar economicamente?
Quem coloca milhões dessas unidades no mercado?
O consumidor participa do ciclo, mas não controla o desenho do sistema.
Somos, em larga medida, uma sociedade refém de um modelo produtivo e de consumo profundamente dependente do plástico. Basta entrar em um supermercado para perceber quanto da nossa suposta “escolha” já foi feita antes de chegarmos à prateleira.
Transformar o cidadão no principal responsável pela poluição significa deslocar o debate do lugar onde grande parte das decisões efetivamente acontece: a produção, o design, a distribuição e a comercialização.
Cumprir a formalidade não significa alcançar a finalidade
O Brasil não parte do zero.
Desde 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece uma hierarquia bastante clara: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e, finalmente, disposição adequada dos rejeitos.
A lei também instituiu a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e atribuiu responsabilidades a fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e poder público.
O problema está na distância entre a arquitetura normativa e aquilo que encontramos na praia.
Na minha avaliação, uma das fragilidades da política brasileira de resíduos tem sido permitir que, em determinadas situações, o cumprimento formal das obrigações seja confundido com o alcance de sua finalidade ambiental.
Certificados, créditos, toneladas compensadas e relatórios podem ser instrumentos administrativos importantes. Mas o indicador final precisa ser ambiental.
Está diminuindo a quantidade de plástico que escapa para o ambiente?
Está diminuindo a geração de embalagens desnecessárias?
Estamos substituindo o descartável pelo reutilizável?
Estamos redesenhando produtos de baixa reciclabilidade?
Estamos recuperando proporcionalmente aquilo que colocamos no mercado?
Se as respostas continuam insuficientes, então cumprir procedimentos não basta.
O novo marco da logística reversa será testado pelos resultados
É importante reconhecer que houve avanços regulatórios recentes.
O Decreto nº 12.688/2025 instituiu o sistema nacional de logística reversa de embalagens plásticas e estabeleceu responsabilidades para fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, incluindo sustentabilidade econômico-financeira do sistema, metas, rastreabilidade, conteúdo reciclado e participação de cooperativas e organizações de catadores.
Também em 2025, a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico passou a prever medidas como redução do plástico de uso único, substituição gradual de embalagens multicamadas de baixa reciclabilidade e aperfeiçoamento da responsabilidade compartilhada.
São movimentos relevantes.
Mas novamente será necessário separar anúncio de resultado.
O sucesso dessas políticas não poderá ser medido apenas pelo número de empresas formalmente aderentes aos sistemas ou pela quantidade de certificados emitidos.
Terá que aparecer nas ruas, nos rios, nas praias e no Oceano.
Sustentabilidade não pode ser apenas estratégia de reputação
Existe ainda um debate que o setor empresarial precisa enfrentar com maturidade: a diferença entre comunicação ambiental e transformação ambiental.
Nos últimos anos, sustentabilidade, ESG, economia circular e conservação do Oceano passaram a ocupar campanhas publicitárias, embalagens, relatórios corporativos, patrocínios e estratégias de posicionamento de marcas.
Isso poderia representar uma extraordinária mudança cultural dentro das empresas.
O problema surge quando a narrativa avança muito mais rápido do que a transformação do produto.
Patrocinar uma limpeza de praia enquanto se mantém praticamente intacto um modelo baseado em descartabilidade não resolve a origem do problema.
Financiar educação ambiental enquanto se transfere ao consumidor a responsabilidade predominante pelo pós-consumo também não.
Apoiar causas ambientais pode ser legítimo e importante. Mas quando a causa se transforma principalmente em ativo de marketing e reputação, sem mudanças compatíveis no modelo de negócio, entramos no terreno do greenwashing.
Não precisamos de empresas apenas contando histórias melhores sobre sustentabilidade.
Precisamos de produtos melhores, embalagens melhores e sistemas melhores.
A reciclagem é necessária. Mas não é uma licença para produzir indefinidamente
Existe uma armadilha perigosa quando economia circular passa a ser tratada como sinônimo de reciclagem.
Não são a mesma coisa.
O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente propõe uma transformação sistêmica baseada primeiro na eliminação de plásticos problemáticos e desnecessários e depois na expansão do reuso, da reciclagem e de alternativas mais adequadas. Segundo o PNUMA, mudanças sistêmicas poderiam reduzir a poluição plástica global em até 80% até 2040.
A lógica é relativamente simples:
antes de perguntar como reciclar, precisamos perguntar se aquele plástico precisava ter sido produzido.
Essa talvez seja uma das discussões que mais incomodam.
Porque redução absoluta de determinados produtos significa discutir produção, mercado e modelo de negócio — e não apenas gestão de resíduos.
O debate regulatório precisa enfrentar a origem
É nesse contexto que deve ser acompanhado também o PL 2524/2022, atualmente em tramitação no Senado.
O projeto estabelece regras relacionadas à economia circular do plástico, propõe mecanismos de responsabilização e inclui cooperativas e associações de catadores entre as atividades contempladas pelo Programa Federal de Pagamento por Serviços Ambientais. A proposta recebeu parecer favorável na Comissão de Assuntos Sociais e permanece em tramitação, sob relatoria na Comissão de Assuntos Econômicos.
Como toda regulação de grande alcance, seus instrumentos, impactos econômicos, mecanismos de implementação e efeitos sobre diferentes segmentos da cadeia, segundo o Congresso Nacional, precisam ser discutidos tecnicamente. O próprio debate legislativo já registrou preocupações de representantes do setor produtivo sobre custos, logística e operacionalização, enquanto o plástico segue vazando livremente ao oceano.
Mas existe uma questão que não pode desaparecer dessa discussão: quanto custa não enfrentar o problema?
Quem paga pela limpeza urbana?
Quem paga pela retirada dos resíduos das praias?
Quem paga pela perda ambiental?
Quem assume o custo dos materiais que escapam do sistema?
Hoje, parte significativa dessa conta é socializada.
Enquanto isso, o produto que originou o resíduo já foi vendido.
Não vamos limpar nossa saída dessa crise
Depois de 26 anos entrando nas praias para recolher resíduos, aprendi algo que considero fundamental:
uma limpeza de praia é necessária, mas também é a fotografia de uma falha.
Cada embalagem encontrada na areia atravessou anteriormente uma cadeia econômica.
Foi produzida.
Foi transformada.
Foi embalada.
Foi transportada.
Foi comercializada.
Foi consumida.
E, em algum ponto, escapou do sistema.
Por isso, continuar concentrando nossa energia apenas no último elo dessa cadeia é insuficiente.
Precisamos de educação ambiental, coleta seletiva, catadores valorizados, infraestrutura municipal, logística reversa e reciclagem.
Mas precisamos também falar de redução, reuso, redesign, rastreabilidade, responsabilidade econômica, metas obrigatórias, fiscalização e prevenção.
Precisamos questionar a descartabilidade.
Precisamos reduzir a produção de materiais problemáticos e desnecessários.
E precisamos parar de acreditar que campanhas de conscientização destinadas ao consumidor serão capazes de compensar indefinidamente escolhas feitas muito antes de ele chegar ao caixa do supermercado.
Nestas mais de duas décadas extraindo lixo marinho das zonas costeiras, o verdadeiro indicador de sucesso para o Ecosurf não deveria ser comemorar que retiramos mais toneladas das praias.
Deveria ser exatamente o contrário:
encontrar cada vez menos resíduos para retirar.
Porque podemos continuar organizando milhares de mutirões.
Podemos mobilizar milhões de voluntários.
Podemos aperfeiçoar infinitamente nossas técnicas de coleta.
Mas enquanto a torneira continuar aberta, estaremos enxugando gelo para evitar que mais água escorra.
O problema não começa na praia.
E qualquer solução que pretenda ser realmente transformadora também não pode começar apenas nela.
Assine a Petição: Para o Tsunami de Plástico – Assinar
Os artigos de opinião refletem a visão de seus autores e não necessariamente a posição institucional do Instituto Ecosurf.


